sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A visão masculina da coisa

Quem nunca passou em sua adolescência pela agonia da espera para descobrir se está ou não está grávida? Se você era sexualmente ativa, é claro que já experimentou algo do tipo. Mas nós mulheres só conseguimos enxergar isso pela nossa ótica. “Vai sobrar pra mim”, “sou eu que vou engordar”, “o trabalhado vai ser todo meu” ou “os meus pais vão me matar” como se o homem ou o garoto também não tivesse suas dúvidas e angústias. A seguir um texto de Luilton Pires, um desses escritores phodásticos que eu (Karoliny Dias) conheci no twitter através da amiga Maristelly de Vasconcelos e que me deixa de boca aberta com suas sacadas e sua sagacidade. O homem é inteligente. Acreditem.


Os filhos que não tive

 

- Amor, minha menstruação não veio.
- Não fala isso, pelo amor de Deus!

E essa é aquela fase da vida de um homem, em que uma ligação com um “amor, veio” traz a maior sensação de alívio que se pode ter. Na adolescência, o ímpeto natural de se entregar à paixão e ao momento, não vem junto com o discernimento necessário pra comprar uma camisinha. Às vezes, não dá tempo e a gente acha que vale a pena arriscar só aquela vez.
Aí você fica contando com a sorte. A preocupação começa imediatamente após a relação sexual. Os dias seguintes são um grande tormento, em que se tenta esquecer que você pode ser pai. Por um momento, até fazer planos, como vai ser o nome, ensaiar o que vou dizer aos meus pais, e por aí vai.

- Amor, veio.

E tudo se transforma! Você quer gastar toda a migalha que tem na carteira e comemorar. Daí promete que nunca mais fará sexo sem camisinha. Promessa essa, que é quebrada logo que a menstruação da namoradinha acaba.
Então decidem que ela deve tomar um anticoncepcional. Tal pílula engorda, a injeção de hormônio faz nascer bigode e a gente passa a conviver com esses problemas, até que, após vários sustos filhos que não tivemos, a mulher decide que é melhor engordar um pouquinho do que engravidar fora de hora.

- Acho que chegou a hora de termos nossa filha.

Suspende a pílula e haja amor! Então o “amor, veio” passa a ser uma decepção atrás da outra. Comigo durou cerca de 5 anos. Já dava pra achar que havia algum problema e que deveriamos fazer um tratamento. Quando de repente, eu recebo uma camisa com a foto da ultrassonografia da minha primeira bebê.

Depois da primeira, a promessa de que não teria outro filho tão cedo. Promessa quebrada logo após o término da primeira menstruação. A segunda filha viria alguns meses depois.

Alguma medida drástica precisava ser tomada! Parar de fazer sexo, usar camisinha sempre, usar as pílulas que engordam... nada parecia ser uma boa ideia. Então o médico sugeriu o DIU.

A alegria está de volta à nossa casa! Finalmente o sexo sem medo, sem barreira, sem culpa e a vida conjugal toma um novo rumo. Três meses depois, do hospital, após um exame ginecológico, ela liga dizendo “amor, o DIU está completamente fora do lugar”.

Por 5 segundos eu me acho “o cara”, afinal deslocar um DIU não deve ser pra qualquer um. Logo depois, vem à tona aquela preocupação da adolescência: “será que ela está grávida?” Novos planos, quantas latas de leite, mais fraldas, e o futuro, a escola, e como serão as três nas cadeirinhas do carro...

Até que ela liga logo depois “amor, o médico disse que não estou grávida”.

Foi mais um dos milhares de filhos que tive, que apesar não terem se materializado, tiveram um pouquinho da minha atenção como pai.


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